ARTHUR VEROCAI — ARTHUR VEROCAI (1972)

 
ARTHUR VEROCAI — ARTHUR VEROCAI (1972) | Um presente que escondia uma crítica

Lançado em 1972 pela Continental, o primeiro álbum de Arthur Verocai é uma das obras mais singulares da música brasileira dos anos 1970. Um disco que, apesar da recepção comercial discreta na época, atravessou décadas e conquistou reconhecimento internacional pela riqueza de seus arranjos, pela sofisticação harmônica e pela mistura de referências musicais.

Arranjador, compositor, guitarrista e produtor, Verocai construiu um trabalho que aproxima MPB, samba, jazz, soul, música erudita e psicodelia. O resultado é uma sonoridade sofisticada, com cordas, metais, flautas, percussões e harmonias vocais, organizada em arranjos de grande personalidade.

Entre as dez faixas, “Presente Grego” chama atenção não apenas pela construção musical, mas também pelo significado de sua letra. Composta por Verocai e Vítor Martins, a canção utiliza a expressão que dá título à música como metáfora para a realidade política brasileira durante a ditadura militar.

A referência à Grécia Antiga e à imagem do cavalo de Troia esconde uma crítica ao regime autoritário. Em entrevista, Verocai explicou que a letra de Vítor Martins tratava justamente da ditadura como um presente de grego oferecido à população. A metáfora passou pela censura sem ser compreendida em toda a sua dimensão.

Musicalmente, a faixa reúne piano, vozes e uma atmosfera que contrasta com a densidade de seu conteúdo. Entre os participantes estão Toninho Horta, Gilda Horta, Toninho Café e D. Carlos nos vocais, além de Aloísio Milanez ao piano.

Mas o álbum oferece muito mais. “Caboclo” abre o disco com uma combinação de ritmo, vozes e arranjos orquestrais. “Pelas Sombras” apresenta uma atmosfera mais introspectiva, enquanto “Sylvia” revela a delicadeza instrumental de Verocai.

“Dedicada a Ela” traz a parceria com Paulinho Tapajós. “Seriado” conta com a participação vocal de Célia. Já “Na Boca do Sol” é um dos grandes momentos do repertório, com uma construção musical que evidencia a riqueza dos arranjos e a identidade sonora do compositor.

“Velho Parente”, “O Mapa” e “Karina (Domingo no Grajaú)” completam um conjunto que parece não se prender a fórmulas ou classificações.

O disco contou com músicos de destaque, como Luiz Alves, Robertinho Silva, Pascoal Meirelles, Oberdan Magalhães, Paulo Moura, Nivaldo Ornelas, Hélio Delmiro, Pedro Santos, Toninho Horta e Aloísio Milanez.

Na época, o álbum não alcançou o reconhecimento comercial esperado. Com o passar dos anos, porém, passou a ser redescoberto por músicos, pesquisadores, colecionadores e DJs de diferentes partes do mundo, tornando-se uma referência para quem pesquisa as conexões entre a música brasileira, o jazz e o soul.

O primeiro álbum de Arthur Verocai é daqueles trabalhos que revelam novas camadas a cada audição. Uma obra de enorme liberdade criativa, na qual a beleza dos arranjos convive com a inteligência das letras.

E “Presente Grego” demonstra que, por trás de uma música aparentemente delicada, também pode existir uma mensagem contundente.

Repertório:

Lado A

  1. Caboclo — Arthur Verocai / Vítor Martins

  2. Pelas Sombras — Arthur Verocai / Vítor Martins

  3. Sylvia — Arthur Verocai

  4. Presente Grego — Arthur Verocai / Vítor Martins

  5. Dedicado a Ela — Arthur Verocai / Paulinho Tapajós

Lado B

  1. Seriado — Arthur Verocai / Vítor Martins

  2. Na Boca do Sol — Arthur Verocai / Vítor Martins

  3. Velho Parente — Arthur Verocai / Vítor Martins

  4. O Mapa — Arthur Verocai / Vítor Martins

  5. Karina (Domingo no Grajaú) — Arthur Verocai / Vítor Martins


Original 

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