Jackson 5 - Get It Together


 Jackson 5 - Get It Together: quando os meninos da Motown começaram a mudar o passo.

Existe um momento na história de um artista em que a fórmula que o consagrou começa a deixar de ser suficiente.

Para o Jackson 5, esse momento chegou no início dos anos 1970.

Depois de uma sequência impressionante de sucessos na Motown, o grupo precisava enfrentar uma questão inevitável: como crescer artisticamente sem perder a identidade que havia conquistado milhões de ouvintes?

Em 1973, a resposta veio em forma de funk, soul e uma batida muito mais próxima do que estava acontecendo nas pistas.

O resultado foi Get It Together.

Lançado pela Motown em 12 de setembro de 1973, o álbum foi produzido principalmente por Hal Davis e trouxe oito faixas, incluindo “Get It Together”, “It's Too Late to Change the Time” e a primeira versão de “Dancing Machine”.

E ouvir esse disco hoje é perceber que o Jackson 5 estava começando a deixar para trás a imagem dos garotos-prodígio.

A Motown estava mudando. O Jackson 5 também.

O início dos anos 1970 foi um período de transformação profunda na música negra norte-americana.

O soul clássico da década anterior estava abrindo espaço para novas possibilidades. O funk ganhava cada vez mais força, os arranjos ficavam mais pesados, os grooves mais longos e a música para dançar começava a ocupar um espaço ainda maior.

O Jackson 5 não estava fora desse movimento.

Pelo contrário.

Get It Together mergulha justamente nessa transformação.

A faixa-título já apresenta uma sonoridade diferente daquela associada aos primeiros grandes sucessos do grupo. Michael e Jermaine dividem os vocais principais, enquanto os cinco irmãos participam dos vocais de apoio.

O resultado é menos “pop adolescente” e mais soul-funk de pista.

É como se o grupo estivesse dizendo: crescemos.

E então aparece “Dancing Machine”

Talvez a grande surpresa do disco esteja justamente no final.

“Dancing Machine” encerra o álbum e, naquele momento, ainda não era o fenômeno que se tornaria no ano seguinte.

A gravação original foi feita em 1973 e lançada no álbum Get It Together. Em fevereiro de 1974, a música ganhou nova edição como single, alcançando o segundo lugar da Billboard Hot 100 e o primeiro lugar na parada de R&B.

Há algo interessante nessa história.

Muitas vezes lembramos “Dancing Machine” como um grande sucesso de 1974, mas sua origem está neste álbum.

Ou seja: quem coloca Get It Together na vitrola hoje consegue ouvir, antes de todo mundo, uma das portas que levariam o Jackson 5 para uma nova fase.

E a música também antecipava algo que se tornaria cada vez mais importante na trajetória de Michael Jackson: a relação entre música, ritmo e performance corporal.

A famosa dança do robô associada a “Dancing Machine” ajudaria a transformar a apresentação da música em um espetáculo visual.

Um repertório que olha para dentro da própria Motown

Outro detalhe interessante está nas escolhas do repertório.

“Reflections”, por exemplo, havia sido gravada originalmente por Diana Ross & The Supremes.

“Hum Along and Dance” vinha do repertório dos Temptations.

“Mama, I Got a Brand New Thing (Don't Say No)” havia sido registrada pelo Undisputed Truth.

E “You Need Love Like I Do (Don't You?)” já havia passado pelas vozes de Gladys Knight & the Pips e dos Temptations.

Isso diz bastante sobre a lógica da Motown.

A gravadora possuía um enorme repertório interno e uma verdadeira rede de compositores, produtores, arranjadores e artistas. Uma mesma composição podia atravessar diferentes intérpretes e receber novas leituras.

No caso do Jackson 5, essas músicas também funcionavam como uma maneira de aproximar o grupo da tradição soul da própria gravadora.

O Jackson 5 queria crescer

Há uma questão importante por trás do som de Get It Together.

O Jackson 5 havia se tornado um fenômeno ainda muito jovem. A imagem dos irmãos, especialmente a de Michael, era parte fundamental do sucesso.

Mas artistas crescem.

E o público também.

O problema é que a indústria frequentemente prefere que uma fórmula bem-sucedida permaneça intacta.

O próprio catálogo do período mostra que a Motown estava tentando encontrar novos caminhos para o grupo, enquanto a sonoridade mais ligada aos anos 1960 começava a parecer menos atual diante da evolução do funk e do soul.

É nesse contexto que Get It Together ganha importância.

Não porque seja simplesmente “um disco melhor” ou “mais maduro”.

Mas porque registra uma tentativa de mudança.

Michael ainda era o centro, mas o grupo estava mudando

Michael Jackson já era a principal voz do grupo e chamava atenção pela capacidade vocal muito acima de sua idade.

Mas Get It Together também permite observar o Jackson 5 como conjunto.

Jackie, Tito, Jermaine, Marlon e Michael continuam formando aquela arquitetura vocal característica.

A diferença está no ambiente musical.

Os arranjos são mais funk, as músicas ganham maior duração e algumas faixas se afastam bastante do formato pop enxuto dos primeiros anos.

“Hum Along and Dance”, por exemplo, ultrapassa oito minutos.

“Mama, I Got a Brand New Thing” passa dos sete.

Isso não é um detalhe.

É a linguagem do funk entrando dentro de um grupo que havia sido apresentado ao mundo através de singles pop de pouco mais de dois minutos.

O curioso é que o disco não foi um grande sucesso comercial

Aqui existe uma das contradições mais interessantes de Get It Together.

O álbum chegou apenas ao número 100 da Billboard 200.

O single “Get It Together” teve desempenho mais expressivo nas paradas de R&B, chegando ao segundo lugar, enquanto alcançou o número 28 na Billboard Hot 100.

Mas o que parecia ser apenas mais uma tentativa de reposicionamento acabou preparando terreno para algo muito maior.

“Dancing Machine” viria a se transformar em um grande sucesso em 1974.

É uma dessas situações curiosas da história da música em que um álbum relativamente discreto contém uma música que, pouco tempo depois, ajudaria a mudar novamente a trajetória de seus intérpretes.

Escutar hoje é ouvir uma transição

Talvez seja justamente essa a maior riqueza de Get It Together.

Ele não está exatamente no começo da história do Jackson 5.

Também não está no auge da fase posterior.

Está no meio da transformação.

E discos de transição costumam ser particularmente interessantes para quem gosta de entender música além dos grandes sucessos.

Aqui podemos ouvir o Jackson 5 tentando acompanhar o tempo.

O soul estava ficando mais pesado.

O funk estava ocupando as pistas.

A disco começava a se aproximar.

Michael estava deixando de ser apenas o menino prodígio.

E a Motown, uma das grandes arquitetas do soul dos anos 1960, precisava encontrar seu lugar em uma nova década.

Get It Together é o registro desse instante.

Não é apenas o álbum que contém “Dancing Machine”.

É o álbum que mostra como o Jackson 5 chegou até “Dancing Machine”.

E essa diferença muda completamente a maneira de ouvir o disco.

Porque, às vezes, a história da música não está escondida no grande sucesso.

Está justamente no disco que veio um pouco antes.

Repertório original

  1. Get It Together

  2. Don't Say Goodbye Again

  3. Reflections

  4. Hum Along and Dance

  5. Mama, I Got a Brand New Thing (Don't Say No)

  6. It's Too Late to Change the Time

  7. You Need Love Like I Do (Don't You?)

  8. Dancing Machine