Chuck D & The Slamjamz Artist Revue

 
Chuck D & The SLAMjamz Artist Revue quando o hip-hop reencontra James Brown

Há discos que simplesmente revisitam o passado. Outros tentam provar que o passado ainda está vivo.

Tribb to JB, lançado em 2007 por Chuck D & The SLAMjamz Artist Revue, pertence à segunda categoria.

À frente do projeto está Chuck D, uma das vozes fundamentais da história do hip-hop, que decidiu olhar para uma das maiores fontes de inspiração da música negra contemporânea: James Brown.

O resultado não é exatamente um disco de covers no sentido tradicional. É uma espécie de reencontro entre duas linguagens que sempre estiveram muito mais próximas do que parece: o funk de James Brown e a cultura do hip-hop.

Tributo, mas sem nostalgia

Lançado em novembro de 2007, Tribb to JB foi concebido como uma homenagem a James Brown no primeiro aniversário de sua morte. O repertório percorre algumas das composições mais emblemáticas do catálogo do Godfather of Soul, entre elas “Soul Power”, “Make It Funky”, “Get Up, Get Into It, Get Involved”, “Say It Loud I'm Black and I'm Proud”, “It's a Man's Man's Man's World”, “Talking Loud and Saying Nothing”, “Super Bad” e “Funky President”.

Mas existe uma diferença importante: Chuck D não tenta transformar James Brown em peça de museu.

A proposta é fazer essas músicas circularem novamente por outra linguagem.

É aí que o projeto ganha interesse.

O hip-hop nasceu, entre outras coisas, da capacidade de olhar para discos antigos e descobrir neles novos caminhos. Breaks, grooves, riffs de metais, linhas de baixo e batidas de bateria foram retirados de seus contextos originais e transformados em matéria-prima para uma nova cultura.

E James Brown talvez seja um dos artistas mais importantes para entender esse processo.

O elo entre James Brown e o hip-hop

Antes mesmo de existir Public Enemy, antes do rap conquistar as rádios e antes de os produtores transformarem o sample em uma das principais ferramentas da música contemporânea, havia James Brown.

A bateria seca, a repetição, o baixo insistente, os metais entrando como golpes e aquela busca quase obsessiva pelo “um” da música criaram uma gramática que seria fundamental para o funk e, posteriormente, para o hip-hop.

Não por acaso, Tribb to JB reúne justamente músicas que ajudaram a construir essa ponte.

“Funky President”, por exemplo, carrega uma importância que ultrapassa o próprio groove. “Say It Loud I'm Black and I'm Proud” pertence à história da música negra e também à história política e cultural dos Estados Unidos. “Get Up, Get Into It, Get Involved” e “Talking Loud and Saying Nothing” mostram outro lado de Brown: o artista que utilizava o funk como veículo para comentário social.

Chuck D entendeu isso muito cedo.

Sua obra com o Public Enemy sempre dialogou com essa tradição. O que aparece em Tribb to JB, portanto, não é uma aproximação artificial entre rap e funk. É praticamente uma conversa entre gerações.

A banda por trás da ideia

Outro ponto interessante está na própria formação do projeto.

A SLAMjamz Artist Revue não é simplesmente Chuck D acompanhado por uma banda convencional. O álbum envolve nomes e grupos ligados ao universo da gravadora Slam Jamz, incluindo Kyle Jason & The Banned, The Impossebulls, Crew Grrl Order e The Scallions, além de participações de músicos e produtores ligados à cena.

Kyle Jason assume papel importante nos vocais, enquanto Chuck D aparece como intérprete e MC.

Essa configuração ajuda a explicar a personalidade do álbum.

O disco não procura reproduzir mecanicamente os arranjos originais de James Brown. Existe uma tentativa de reconstruir aquelas músicas dentro de uma estética que passa pelo hip-hop, pelo funk e pela tradição da música negra independente.

É justamente aí que algumas faixas funcionam melhor do que outras.

A pergunta inevitável: é melhor que o original?

Não.

E talvez essa nem seja a pergunta certa.

James Brown é James Brown.

Reproduzir a energia, a precisão e a tensão de uma gravação original do Godfather of Soul é uma tarefa quase impossível. O mérito de Tribb to JB está menos em competir com o passado e mais em mostrar o que aquele passado provocou.

É como abrir um disco antigo e perguntar:

“O que podemos fazer com isso hoje?”

Essa é uma pergunta muito mais interessante.

O crítico musical Robert Christgau, ao comentar o álbum, observou justamente essa tensão: reconheceu momentos muito fortes no projeto, mas também ressaltou que as novas versões não alcançam o impacto dos originais de James Brown.

E essa leitura faz sentido.

Há momentos em que a homenagem ganha força justamente quando deixa de tentar ser uma reprodução e assume sua própria identidade.

Chuck D não abandona o microfone

Talvez uma das características mais interessantes do projeto seja a presença de Chuck D como MC.

Ele não está ali apenas para apresentar as músicas.

Sua participação recoloca o hip-hop dentro daquela história.

Isso fica particularmente evidente quando sua voz entra sobre estruturas musicais construídas a partir do universo de James Brown. O efeito é curioso: aquilo que poderia parecer apenas uma homenagem passa a funcionar como uma conversa entre o funk político dos anos 1960 e 1970 e o rap politizado que surgiria posteriormente.

Nesse sentido, Tribb to JB é também um disco sobre memória.

Mas memória ativa.

Não aquela que simplesmente guarda um passado, e sim aquela que utiliza o passado para produzir alguma coisa nova.

Uma curiosidade que merece atenção

O álbum termina com uma longa faixa de aproximadamente dez minutos, “Medly: Outro/King Heroin [Live], que combina material de “Outro” com “King Heroin”. A faixa fecha o disco de maneira diferente das demais, quase como uma extensão da homenagem.

E “King Heroin” merece atenção especial.

A música original de James Brown era uma narrativa falada sobre os efeitos da heroína, mostrando como Brown também utilizava sua música e sua persona para abordar problemas sociais. No projeto de Chuck D, essa escolha reforça a intenção de recuperar não apenas os grandes sucessos funk de Brown, mas também sua dimensão narrativa e social.

O que permanece depois da última faixa?

Talvez a maior qualidade de Tribb to JB seja lembrar que a história da música negra não acontece em compartimentos.

Funk gerou samples.

Samples ajudaram a construir o hip-hop.

O hip-hop voltou a olhar para o funk.

E artistas como Chuck D passaram a reconhecer publicamente os músicos que ajudaram a criar o terreno onde sua própria música poderia existir.

É um ciclo.

E talvez seja justamente por isso que James Brown continue aparecendo tantos anos depois em discos, samples, DJs, produtores e novas gerações de músicos.

Porque o groove não envelhece da mesma maneira que as modas.

Ele é redescoberto.

Tribb to JB pode não substituir nenhum disco clássico de James Brown e nem deveria. Sua importância está em outra parte: mostrar que reverenciar uma influência não significa simplesmente repetir aquilo que ela fez.

Às vezes, a melhor homenagem é colocar o passado novamente em movimento.

E quando esse passado começa com James Brown e passa pelas mãos de Chuck D, a conversa inevitavelmente chega ao hip-hop.

Talvez seja esse o verdadeiro “Tribb to JB”: não apenas um tributo a James Brown, mas uma demonstração de como o funk continua ecoando décadas depois de sua criação.

Faixas

  1. Intro
  2. Soul Power
  3. Make It Funky
  4. Get Up, Get Into It, Get Involved
  5. Say It Loud I'm Black and I'm Proud
  6. It's a Man's Man's World
  7. King Heroin
  8. Talking Loud and Saying Nothing
  9. Think Mama for the Soul Sisters
  10. Super Bad
  11. Funky President
  12. Medley: Outro / King Heroin [Live]