JOÃO DONATO — A BAD DONATO (1970)

 
JOÃO DONATO — A BAD DONATO (1970) | O encontro explosivo entre jazz, funk e psicodelia

Em 1970, João Donato apresentou um dos discos mais surpreendentes de sua carreira. Lançado pelo selo norte-americano Blue Thumb Records, A Bad Donato é uma experiência instrumental que rompe com as expectativas mais convencionais em torno da bossa nova e do samba-jazz.

Gravado nos estúdios A&M, em Los Angeles, o álbum nasceu de um convite do produtor e percussionista Emil Richards, que ofereceu a Donato liberdade para explorar novas possibilidades musicais. O resultado foi uma sonoridade ousada, com forte presença de funk, jazz, rock e psicodelia.

Os arranjos, assinados por João Donato e Eumir Deodato, exploram uma formação instrumental ampla, com metais, guitarras, baixo, bateria e percussão. O piano e os teclados de Donato conduzem as composições, mas dividem espaço com linhas de baixo marcantes, grooves sinuosos e intervenções de sopros que dão ao disco uma atmosfera quase cinematográfica.

A abertura com “The Frog”, versão instrumental de “A Rã”, já anuncia a proposta. O tema ganha outra dimensão com uma combinação de metais e ritmo que transforma a composição em uma peça de jazz-funk.

“Celestial Showers” e “Bambu” exploram o lado mais hipnótico do álbum, enquanto “Lunar Tune” apresenta uma construção mais extensa, com espaço para desenvolvimento instrumental e mudanças de atmosfera.

Em “Cadê Jodel? (The Beautiful One)”, Donato traz uma composição de caráter mais melódico. Já “Debutante's Ball” e “Straight Jacket” revelam a aproximação com o funk e o jazz elétrico, com arranjos de metais e uma pulsação rítmica bastante característica do período.

“Mosquito (Fly)” mantém o espírito experimental, enquanto “Almas Irmãs” e “Malandro” reforçam a ligação do compositor com a musicalidade brasileira, mesmo dentro de uma linguagem internacionalizada.

O álbum reúne músicos experientes da cena norte-americana e brasileira, entre eles Bud Shank, Chuck Domanico, Oscar Castro Neves, Warren Klein, Dom Um Romão e Emil Richards. A presença desses instrumentistas ajuda a explicar a riqueza de texturas e a liberdade dos arranjos.

A Bad Donato ocupa um lugar especial na história do jazz brasileiro. Não é simplesmente um disco de bossa nova com influências estrangeiras, mas uma obra que absorve o espírito experimental do início dos anos 1970 e o transforma em uma linguagem própria.

João Donato demonstra aqui que seu talento não estava limitado a um gênero ou formato. Seu senso rítmico, sua inventividade harmônica e sua capacidade de criar grooves continuam no centro de tudo, mesmo quando a música aponta para territórios completamente diferentes.

Um daqueles discos que merecem ser ouvidos com atenção, especialmente por quem procura as conexões entre a música brasileira, o jazz-funk e a psicodelia dos anos 1970.


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