Fred Wesley - A Blow For Me A Toot For You


Se o funk dos anos 1970 pode ser entendido como uma linguagem construída a partir do ritmo, do baixo e da bateria, os metais tiveram papel decisivo nessa arquitetura. Poucos músicos representam essa história tão bem quanto Fred Wesley.

Trombonista, arranjador e figura central na formação do som dos J.B.'s, Wesley levou sua experiência ao universo de George Clinton e, em 1977, lançou A Blow for Me, a Toot to You, creditado a Fred Wesley & The Horny Horns, com participação de Maceo Parker.

O álbum foi lançado pela Atlantic Records em 17 de abril de 1977 e produzido por George Clinton e Bootsy Collins.

Mais do que um trabalho solo convencional, o disco funciona como uma espécie de encontro entre duas escolas fundamentais do funk.

De um lado, a precisão rítmica herdada de James Brown e dos J.B.'s. De outro, a liberdade, a psicodelia e o humor característicos do P-Funk.

E os créditos ajudam a explicar o resultado.

Ao lado de Wesley e Maceo Parker aparecem nomes como Bootsy Collins, Bernie Worrell, Garry Shider, Michael Hampton, Glenn Goins, Jerome Brailey e Frankie “Kash” Waddy. Os metais ainda contam com a participação dos Brecker Brothers.

É, portanto, um disco de músicos que conheciam profundamente o funcionamento do groove.

O REPERTÓRIO

  1. Up for the Down Stroke

  2. A Blow for Me, a Toot to You

  3. When in Doubt: Vamp

  4. Between Two Sheets

  5. Four Play

  6. Peace Fugue

A abertura com “Up for the Down Stroke”, originalmente associada ao Parliament, estabelece imediatamente a conexão com o repertório P-Funk. A versão de Wesley e dos Horny Horns amplia a presença dos metais e transforma a composição em uma demonstração de força instrumental.

A faixa-título, “A Blow for Me, a Toot to You”, concentra boa parte da estética do projeto: metais agressivos, baixo marcado, teclados de Bernie Worrell e uma seção rítmica capaz de sustentar longos desenvolvimentos.

“When in Doubt: Vamp” trabalha com uma das estruturas mais importantes do funk: o vamp, repetição rítmica que permite aos músicos explorar pequenas variações dentro de um groove persistente.

Em “Between Two Sheets”, a influência do P-Funk aparece novamente de maneira evidente.

Mas é “Four Play” que se tornou particularmente importante para gerações posteriores. Seu groove acabou sendo incorporado à linguagem do hip-hop por meio de samples, incluindo trabalhos de Gang Starr e Digital Underground.

O encerramento fica por conta de “Peace Fugue”, composição de Fred Wesley que apresenta uma faceta diferente do álbum. Mais atmosférica e sofisticada, a faixa aproxima o funk de uma linguagem de jazz-funk e evidencia o conhecimento harmônico e instrumental do trombonista.

ENTRE JAMES BROWN E GEORGE CLINTON

O aspecto mais interessante de A Blow for Me, a Toot to You está justamente na posição que ocupa dentro da história do funk.

Fred Wesley havia aprendido a trabalhar com a economia rítmica de James Brown: poucos elementos, máxima precisão e uma seção de metais funcionando como parte da própria percussão.

No ambiente de George Clinton, essa mesma disciplina encontra uma estética muito mais expansiva.

O resultado é um funk menos preocupado com a simplicidade da fórmula e mais interessado em textura, timbre, improvisação e construção coletiva.

Nesse sentido, o álbum também demonstra que os metais não eram simples complementos dentro do funk. Trombone, saxofones e trompetes funcionavam como instrumentos rítmicos, melódicos e, muitas vezes, como protagonistas.

Essa característica seria fundamental para o desenvolvimento do jazz-funk e, décadas depois, para a cultura dos samples no hip-hop.


UM DOCUMENTO DO P-FUNK

A Blow for Me, a Toot to You não possui a mesma dimensão conceitual dos grandes discos do Parliament ou do Funkadelic. A própria avaliação crítica do álbum costuma colocá-lo como um trabalho importante e consistente, mas abaixo dos principais clássicos do núcleo P-Funk.

Sua importância está em outro ponto.

O disco registra uma reunião extraordinária de músicos e evidencia como o P-Funk funcionava também como uma rede de instrumentistas, compositores e arranjadores, e não apenas como uma banda ou um conjunto de grupos.

Fred Wesley aparece aqui não como um músico deslocado dentro do universo de George Clinton, mas como alguém que ajudou a estabelecer uma ponte entre duas das maiores escolas do funk americano.

James Brown ensinou o groove a andar. George Clinton ensinou o groove a viajar. Fred Wesley ajudou a fazer essa ponte soar.

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